PARTE I: FUNDAMENTAÇÃO
BÍBLICA – ANTIGO TESTAMENTO
MÓDULO 3: OUTROS TEXTOS DO
ANTIGO TESTAMENTO
O
testemunho mariologico do Antigo Testamento está nos três textos aqui
analisados: Gn3, 15; Is 7, 14; Mq 5, 1s . A piedade cristã acostumou-se a ver
em outras passagens veterotestamentárias alusões a Maria SS. – Embora não
tenham o vigor das anteriores, referir-nos-emos elas neste Módulo.
Lição 1: A Esposa do Cântico dos Cânticos
Este é um livro de interpretação difícil. Os comentadores sugerem
diversos modos de o entender. O mais verossímil afirma que o Cântico apresenta
o amor entre um jovem e uma jovem, desde o inicio do namoro até o contrato
matrimonial, como tipo ou figura do amor do Senhor Deus pela filha de Sion;
esta é tida pelos Profetas como Esposa de Javé; cf Is 54, 1-8; 62, 4s; Os
1-3... Ora a Esposa de Javé no Novo Testamento é a Igreja (cf. 2Cor 11, 2; Ef
5, 25-29), da qual Maria é a miniatura;
em Maria a Igreja vê seu protótipo e considera o
estado final que tocará a todos os justos. A alma de Maria SS., cheia de graça,
estava (e está) unida ao Senhor Deus mais do que qualquer outra criatura. Daí
poderem ser-lhe aplicados ao dizeres que o autor do Cântico dirige à esposa
neste livro. Maria seria a esposa em sentido pleno.
Lição 2: A Sabedoria Personificada
Os Livros dos Provérbios e
do Eclesiástico personificam a sabedoria. Dir-se-ia que os respectivos autores
não a conceberam como simples atributo de Deus, mas como pessoa que assistiu a
Deus na obra da criação. Tenham-se em vista Pr 8, 22-31 e Eclo 24, 3-21.
A liturgia aplica estes
textos a Maria SS., como se fosse ela a Dama que fala ou que é apresentada nos
textos citados.
Este
procedimento, embora seja clássico, não corresponde à exegesse cientifica do
texto. Todavia não deve ser desprezado. É o que se chama “uma adaptação
legitima do texto bíblico”. Com efeito, o original em hebraico tem em vista uma
simples personificação poética, pois os judeus jamais admitiriam uma Pessoa
real ao lado do Criado. Os cristãos, inclusive autores do Novo Testamento (cf
1Cor 1, 24; Hb 1, 3), desenvolveram os textos sapienciais antigos, vendo neles
uma alusão à segunda Pessoa da SS. Trindade; uma vez revelada a existência de
um só Deus em três Pessoas, a releitura cristã do Antigo Testamento descobriu
aí insinuações do Verbo de Deus. – Ora Maria SS. Foi a sede ou o tabernáculo da
sabedoria do Pai na qualidade de Mãe do Verbo feito homem. Além disto, ela foi
a obra-primada Sabedoria Divina. Em conseqüência deste último relacionamento
com a Sabedoria, os predicados da Sabedoria podem ser “adaptados” a Maria, na
base do seguinte raciocínio:
O predicado P convém ao sujeito S.
Ora
o Sujeito S, é afim ao sujeito S.
Donde se segue que o
predicado P convém a S, na medida da afinidade de S, com S. Eis como e por que
se aplicam os textos de Pr 8 e Eclo 24 a Maria SS. Esteja o leitor consciente
de que a exegese cientifica não chegaria a tanto, mas também não repudia as
adaptações legítimas ou justificadas do texto sagrado realizadas pela piedade
católica.
Lição 3: Outros Textos
1- É comum na liturgia das
festas de Nossa Senhora rezarem-se os “salmos de Sion” ou salmos que louvem a
cidade de Jerusalém (Sl 46, 48, 87...). A razão deste uso é que a cidade santa
é considerada mãe do povo israelita ou mesmo mãe de todos os povos (S. Paulo
fala da Jerusalém celeste, que é nossa mãe, em Gl 4, 26). Alias, o livro do
Apocalipse funde entre si os conceitos de Esposa, Mãe e Cidade.
“Vi descer do céu, de junto de Deus, a Cidade Santa,
uma Jerusalém nova, pronta como esposa que se enfeitou para seu esposo” (Ap 21,
2).
“Um dos sete anjos... disse-me: Vem! Vou mostra-te a
Esposa, a mulher do Cordeiro! – Ele então me arrebatou em espírito sobre uma
grande e alto monte, e mostrou-me a Cidade Santa, Jerusalém, que descia do céu,
de junto de Deus”(Ap. 2, 9s).
Ora, a Mãe de Deus e Mãe dos homens tem afinidade
com a Jerusalém celeste, esposa e mãe, segundo a linguagem bíblica. Daí
aplicarem-se a Maria os louvores que tocam a Jerusalém, segundo a praxe
litúrgica católica.
2- Merecem registro ainda duas grandes mulheres do
Antigo Testamento, que desempenharam papel importante na história da salvação
do seu povo: Judite e Ester; a cada qual é dedicado um livro do cânon católico.
Judite é a viúva, figura desprotegida e fraca do
ponto de vista humano, que, fortalecida pela oração e o jejum, realiza
extraordinária façanha: matou o general Holofernes, que se fazia de grande
“deus”. Verdade é que Judite foi hipócrita e mentirosa junto a Holofernes;
todavia estava no seu papel de espiã adversária, da qual Holofernes devia
desconfiar, em vez de ceder às suas paixões; o procedimento de Judite foi
lícito, dado que estava em situação de guerra; o de Holofernes é que foi falho,
visto que se deixou obcecar pela beleza da mulher espiã. – À Virgem SS., na
liturgia, são aplicados os louvores tributados pelo povo a Judite:
“Tu és glória de Jerusalém! Tu és o supremo orgulho
de Israel! Tu és a grande honra do nosso povo!.. Abençoada sejas tu pelo Senhor
na sucessão dos tempos” (Jt 15, 9s).
Quanto a Ester, aparece também como figura frágil,
pois é israelita na corte do rei Assuero, da Pérsia. Todavia, fortalecida pelo
Senhor Deus, sabe encaminhar os acontecimentos de modo a livrar seu povo do
grave perigo de extermínio planejado pelo primeiro-ministro Amã; foi a grande
intercessora junto ao rei em prol da sua gente. – Ora Maria é a intercessora
por excelência em favor dos homens; a história refere vários casos em que a
oração de Maria SS., solicitada pelos fiéis, obteve de Deus a salvação; um dos
episódios mais famosos é o da batalha naval de Lepanto, travada em 1571 pelas
forças de Veneza e Espanha contra os turcos maometanos; estes ameaçavam invadir
o Ocidente cristão; o Papa S. Pio V (1566- 72), tendo pedido a intervenção de
Maria SS. nessa ocasião, houve por bem instruir a festa do Santo Rosário aos 7
de outubro de cada ano para enfatizar e agradecer a intercessão da Virgem SS.
As duas mulheres – Judite e Ester – lembram que é Deus quem
salva os homens como Ele quer, servindo-se dos instrumentos mais precários aos
olhos humanos. È este um traço constante da história da salvação, que São Paulo
experimentou muito vivamente a ponto de dizer: “Eu me comprazo nas fraquezas,
nos opróbrios, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por causa de
Cristo.
Pois, quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12, 10). Ora
Maria foi certamente a humilde serva do Senhor, que a Providência Divina quis
elevar à categoria de nova Eva, intimamente associada à obra de salvação do
gênero humano.
Perguntas
1)
Como se relacionam o Cântico dos Cânticos e Maria SS.?
2)
Explique por que se aplicam a Maria SS. Os textos de Pr 8 e Eclo 24?
3)
Qual a relação entre a cidade Santa de Jerusalém e Maria SS.?
4)
Como Judite e Ester podem insinuar Maria SS.?
5)
Queira comentar a praxe da Providência Divina, que se serve do que é
fraco para fazer maravilhas.
EXPLICANDO O QUE FOI DITO...
JUDITE
“Está
escrito que, quando Judite voltou, depois de ter arriscado a vida, o sumo
sacerdote a abençoou dizendo: Tu és bendita do Senhor, Deus Altíssimo, minha
filha, entre todas as mulheres da terra... jamais os homens cessarão de
celebrar o teu louvor (Jt 13, 18s). Nós dirigimos a Maria as mesmas palavras: Bendita
és tu entre as mulheres! A coragem que tiveste jamais desaparecerá do coração e
da lembrança da Igreja” (Raniero Cantalamessa, Maria, um espelho para a igreja,
p. 126)
A
FILHA DE SIÃO
“As
palavras de Jesus às vezes descrevem algo já presente, isto é, revelam o que
existe: às vezes, criam e mandam existir o que exprimem. A esta segunda ordem
pertencem as palavras de Jesus dirigidas a Maria e a João no momento da morte.
Dizendo: isto é meu corpo... Jesus transformou o pão no seu corpo; assim também,
com as devidas proporções, dizendo: Eis aí a tua mãe, e Eis aí o teu filho,
Jesus constitui Maria mãe de João e João filho de Maria. Jesus não apenas
proclamou a nova maternidade de Maria, mas a instituiu. Esta, pois, não vem de
Maria, mas da Palavra de Deus; não se baseia no mérito, mas na graça.
Debaixo
da cruz, Maria mostra-se, pois, como filha de Sião que, depois do luto e da
perda dos seus filhos, recebe de Deus novos filhos, mais numerosos que antes,
não segundo a carne, mas segundo o Espírito. Um salmo, que a liturgia aplica a
Maria, Diz: Tiro, a Filistéia e até mesmo a Etiópia: estes ali nasceram. Mas de
Sião se há de dizer: ‘Estes e aqueles nela nasceram....’. O Senhor há de
apontar no registro dos povos: “Este nela nasceu’ (Sl 87, 4ss). É verdade:
todos nascemos lá! Dir-se-á também de Maria, a nova Sião: estes e aqueles dela
nasceram. De mim, de ti, de cada um, também daquele que ainda não o sabe, no
livro de Deus está escrito: ‘Este ali nasceu’.
Mas, por acaso, não renascemos da Palavra de
Deus viva e eterna’(cf. 1Pd 1,23)? Não
‘nascemos de Deus’ (Jô 1, 13) renascidos ‘da água e do Espírito’ (Jô 3, 5)? É a
pura verdade, mas isso não impede que, num sentido diferente, subordinado e
instrumental, tenhamos nascidos também da fé e do sofrimento de Maria. Se
Paulo, que é um servo e um apóstolo de Cristo, pode dizer aos seus fiéis: Fui
eu que vos gerei em Cristo Jesus, por meio do Evangelho (1Cor 4, 15), quanto
mais pode dizê-lo Maria, que é a Mãe Dele! Quem mais do que ela pode fazer suas
as palavras do apóstolo: Filhinhos meus, por quem de novo sinto as dores do
parto (Gl 4, 19)? Ela nos gera ‘de novo’ debaixo da cruz, porque já nos gerou
uma primeira vez, não na dor, mas na alegria, quando deu ao mundo a Palavra
Viva e Eterna que é Cristo, na qual fomos regenerados.
As promessas
de Deus não se referem a puras abstrações, nem a cidades ou muralhas. Referem a
pessoas concretas, das quais todas aquelas coisas são símbolos e imagens. E se
referem a pessoas concretas, a quem se referem àquelas palavras do Salmo, em
que se realizaram de maneira mais clara do que em Maria, a humilde filha de
Sião, início também cronológico daquele ‘resto’, ao qual pertencem às promessas
(cf. Rm 11, 5ss)?
Confiantes nas
potencialidades e riquezas inesgotáveis da Palavra de Deus, que vão muito além
dos esquemas exegéticos, aplicamos a Maria o canto da Sião reconstruída depois
do exílio que, cheia de admiração, olhando para os seus novos filhos, exclama:
Quem me gerou estes filhos? Eu não tinha filhos, era estéril, quem os criou?
(Is 49, 21).
Não
se trata de uma aplicação subjetiva; isto é, não se baseia no fato de Maria ter
ou não pensado, naquele momento, nestas palavras (de fato, é mais provável que
não), mas no fato de estas palavras,
por disposição divina, objetivamente terem se realizado nela. Isso se descobre
por uma leitura espiritual da Escritura, feita com a Igreja e na Igreja. E como sai perdendo quem se coloca na
impossibilidade de jamais a poder fazer! Perde o Espírito, e contenta-se só com
a letra. A moderna ciência da interpretação formulou um princípio interessante;
afirma que, para entender um texto, não podemos prescindir do resultado por ele
produzido, da ressonância que teve na história (Wirkungsgeschichte).
Isto vale mais ainda para os textos da Sagrada escritura; estes não entendem,
em todo seu conteúdo e virtualidade, senão a partir da história do que
produziram em Israel e depois na Igreja; a partir da vida e da luz que deles
brotam. E isto vele, sobretudo para palavras como as que estamos examinando.
Esta ‘história das realizações’ é o que a Igreja chama de “Tradição” (ibb. P.
110s).