Curso de Mariologia
(continuação)
Lição 2: A Interpretação da Tradição
Dizíamos que o Antigo Testamento há de
ser considerado à luz do Novo Testamento, e vice-versa, pois constituem um só
discurso de Deus aos homens. Acrescentemos que a Escritura Sagrada como tal há
de ser relida à luz da Palavra viva que a antecede e acompanha. Com efeito, a
revelação de Deus aos homens foi feita primeiramente por via oral e só
posteriormente foi cristalizada na escrita. Por isto a leitura católica da
Bíblia sempre leva em consideração o entendimento que os antigos intérpretes
davam, é de fé, mas, mesmo assim, ao tratar de assuntos ligados à fé, indicaram
linhas de interpretação digna de atenção.
Ora o paralelismo entre Eva e Maria
ocorre já no século II, sob pena de S. Justino (+ 165). No seu Diálogo com
Trifão (Judeu) escreve:
“Entendemos que se fez homem por
meio da Virgem, de sorte a extinguir a desobediência, oriunda da Serpente, por
ali mesmo onde havia começado. Eva era virgem e incorrupta, concebendo a
palavra da serpente, gerou a desobediência e a morte. A Virgem Maria, porém,
concebeu fé e alegria quando o anjo Gabriel lhe anunciou a boa nova de que o
Espírito do Senhor viria sobre ela; a Força do Altíssimo a cobriria com sua
sombra, de modo que o Santo que dela nasceria, seria o Filho de Deus... Da
Virgem nasceu, pois, Jesus, de quem falam tantas Escrituras... Aquele por quem
Deus destrói a serpente”.
Note-se o paralelismo antitético:
Eva é portadora da desobediência e da morte; Maria, ao contrário, traz a fé e a
alegria. Importante no texto é a observação: Deus quis resolver o impasse
oriundo do pecado mediante os elementos mesmos que introduziram o pecado: o
anjo (mau) falou à mulher infiel a Deus; no primeiro caso, a mulher colabora
para a morte; no segundo caso, a mulher (a nova Eva, a verdadeira Mãe da vida)
colabora para a vida.
Poucos decênios depois, S. Ireneu
(+202) desenvolve o paralelismo. Parte da concepção de que o plano de salvação
não é simplesmente um concerto ou um reparo feito no projeto violado por Adão
no paraíso; mas é um recomeçar desde as origens; nesse recomeçar cada qual dos
elementos envolvidos na queda é chamado a desenvolver um papel de
“recapitulação”, que ele chama também recirculação”: para pagar o pecado, Deus
quis voltar às origens do pecado e recomeçar a história com elementos
correspondentes aos da queda: assim Jesus Cristo é o novo ou o segundo Adão
(ver Rm 5, 14; Cor 15, 45-49); a Cruz de cristo é a nova árvore do paraíso, e
Maria é a nova Eva.
S. Irineu enfatiza fortemente o papel de
Maria como conseqüência necessária do desígnio salvifíco de Deus:
“Da mesma forma que Eva se deixou
seduzir para a desobedecer a Deus, Maria se deixou persuadir a obedecer a Deus para
ser ela ---A Virgem Maria--- a advogada de Eva, de sorte que o gênero humano,
submetido à morte por uma Virgem, fosse dela libertado por uma Virgem,
tornando-se contrabalançada a desobediência de uma Virgem pela obediência de
outra” (Contra as heresias).
No século IV S. Epifânio de Salamina
(Chipre), + 403, se faz, de novo, arauto do paralelismo:
“Eva trouxe ao gênero humano uma causa
de morte: por ela a morte entrou no orbe da terra; Maria trouxe uma causa de
vida; por ela a vida se estendeu a nós. Foi por isso que i filho de Deus veio a
este mundo: para que, onde abundou o delito,superabundasse a graça. Onde a
morte havia chegado, ai chegou a vida, para tomar seu lugar; e aquele mesmo que
nasceu da mulher para ser nossa vida,
haveria de expulsar a morte, introduzida pela mulher. Quando ainda
virgem no paraíso, Eva desagradou a Deus por sua desobediência. Por isso mesmo
emanou da Virgem a obediência própria da graça,depois que se anunciou o advento
do Verbo revestido de corpo, o advento da eterna Vida do céu” (Panàrion
78,18,1-3) .
O fato de dizerem os escritores
antigos que Eva era virgem ao pecar se baseia no fato de que o Gênesis narra a
queda do homem e da mulher antes que concebam seus primeiros filhos: Caim e
Abel (cf. Gn 4). Este tornou-se clássico na Tradição Cristã, a ponto de ser
reafirmado pelo Concilio do Vaticano II (1962-65) quando diz:
“É com razão que os Santos Padres
julgam que Deus não se serviu de Maria como instrumento meramente passivo, mas
julgam que cooperou para a salvação humana com livre fé e obediência. Pois ela,
como diz S. Irineu, obedecendo, se fez causa de salvação tanto pra si como para
todo gênero humano. Donde não poucos Padres antigos afirmam de bom grado em sua
pregação: ‘O nó da desobediência de Eva foi desfeito pela obediência de Maria;
o que a virgem Eva ligou pela incredulidade, a virgem Maria desligou pela fé.’
Comparando Maria com Eva, chamam-na ‘Mãe dos Viventes’ e com freqüência
afirmam: veio a morte por Eva e a vida por Maria” (Constituição Lumem Gentium
nº 56).
Lição 3: Conclusão (continuação)
Duas grandes reflexões ocorrem à
guisa de conclusão de quanto foi dito:
1)O titulo de Nora Eva é o primeiro
titulo com o qual Maria SS. é venerada pela Tradição Cristã. É o titulo de
maternidade (Mãe da Vida) em relação a Jesus, o Messias. Esta prerrogativa foi
a primeira a ser definida por um Concilio Geral, ou seja, pelo Concilio de
Éfero em 431: Maria é Theotókos, Mãe de Deus, na medida em que Deus se quis
fazer homem. Deste titulo decorrem as demais prerrogativas de Maria SS.
2)Vê-se que a consideração de Maria,
desde as suas origens, tem caráter cristológico. Longe de ser independente de
Cristo, é suscitada pela definição da identidade de Jesus Cristo. Assim a
autêntica piedade Mariana está relacionada com a fé em Jesus Cristo.
PERGUNTAS
1)
Que é sentido estritamente
literal? Que é sentido Literal pleno?
2)
Quem é a mulher de Gn 3,15
segundo o sentido estritamente literal?
3)
Quem é essa Mulher segundo o
sentido literal pleno? Explique bem.
4)
Que é recapitulação ou
recirculação?
5)
Que significa o nome Eva em
hebraico? Como Maria é a nova Eva?