Parte1: Fundamentação
Bíblica – Antigo Testamento
Módulo 1: O PROTOEVANGELHO
(Gn 3,15)
O
Antigo Testamento não fala explicitamente sobre Maria Santíssima. Alguns de
seus textos, porém, ao tratar do Messias, referem-se à Mãe do Messias. Tais são
as passagens de Gn 3,15 (o Protoevangelho ou o primeiro anúncio da Boa-Nova),
Is 7,14 (a profecia do Emanuel), Mq 5,13 (a referência à parturiente).
Outros textos do antigo Testamento são vistos pela tradição
como ecos antecipados do papel que Maria SS. Desempenhou na História da
Salvação: assim os que falam de uma maternidade maravilhosa.
·
Gn 18, 1-15; Isaque nasceu de mãe estéril;
·
Gn 25,21; Esaú e Jacó igualmente;
·
Gn 30, 22-24; José igualmente;
·
Jz 13, 1-24; Sansão igualmente;
·
1 Sm 1, 1-28;Samuel igualmente.
Também
as grandes mulheres do antigo testamento, como Judite e Éster, são tidas como
figuras de Maria SS.
Limitar-nos-emos
ao estudo dos textos que, numa exegese sóbria e cientifica, levam a descobrir a
Mãe do messias predita pelos Profetas.
Lição 1: O Protoevangelho (Gn 3,15)
Depois do pecado, o Senhor não quis abandonar
os primeiros pais, mas logo
lhes fez a promessa de restauração da
aliança violada, anunciando-lhes pela primeira vez (e de maneira ainda pouco
distinta) a vitória do salvador sobre o Tentador e o pecado. Eis o que se lê em
Gn 3, 1, onde Deus fala à serpente (O
Sedutor):
“Porei inimizade entre ti e a mulher, entre tua
descendência e a descendência
da mulher. E ela (a descendência da mulher) te
atingirá a cabeça. E tu lhe atingirás o calcanhar”.
Este versículo
presta-se a mais de uma interpretação. Vamos analisa-lo por partes:
1) - O verbo
hebraico é o mesmo (suph) em 3, 15c e 3, 15d; daí traduzirmos,
com a Bíblia Ecumênica, por atingirá
e atingirás. Embora tanto a descendência da mulher quanto à serpente atinja
(= ataque) o adversário respectivo, há superioridade para aquela, pois ferir a
cabeça é mais grave do que ferir o calcanhar.
2) – O sujeito que fere a cabeça da
serpente, conforme o original hebraico, não é feminino, mas masculino (hu
= ele). Isto quer dizer que não a mulher, mas o rebento da mulher vencerá a
serpente.
3) Pergunta-se agora: Quem é essa
mulher?
E qual será sua descendência?
No contexto de Gn 3 só há uma mulher: aquela que com Adão
pecou. Em conseqüência, o texto tomado ao pe da letra (como um judeu o entendia
ou ainda o entende) se refere à Eva. Quanto à descendência da mulher, seriam
todos os homens fiéis a Deus através dos tempos. Deverão travar batalha contra
o Sedutor e seus seguidores, cabendo a vitória final à linhagem dos bons. – Tal
é o sentido estritamente literal do texto bíblico ou aquilo que se deduz de uma
primeira leitura do mesmo.
4)- A hermenêutica bíblica reconhece, em alguns casos, além
do sentido literal estrito, o sentido literal pleno. Isto
implica que as palavras do autor sagrado podem ter um sentido decorrente da
própria letra, mas não percebido pelo autor humano; Deus, porém, que é o autor
principal e supremo da Escritura Sagrada, terá intencionado esse ulterior
significada da letra. É preciso não esquecer que a Bíblia, tendo Deus como
Autor principal, deve ser considerada como um só discurso ou uma só mensagem
que se vai explicitando ao poucos; daí a necessidade de se compararem os textos
bíblicos entre si; os mais antigos prenunciam os mais recentes e os mais
recentes ilustram e revelam plenamente o sentido dos mais antigos.
5)- Aplicando este principio a Gn 3, 15, pode-se dizer que o
descendente da mulher que concretamente pisou na cabeça da serpente ou do
Tentador, foi o messias Jesus. E a mãe desse senhor vitorioso foi Maria SS. Por
conseguinte, o sentido literal pleno (ou o sentido que decorre da letra
plenamente entendida) aponta Maria e Jesus Cristo como os protagonistas da luta
decisiva contra a serpente e os agentes da vitória sobre a mesma. Com outras
palavras: Eva (=Mãe da vida, em hebraico) de Gn 3, 15 inicia uma tarefa que só
foi plenamente realizada por Maria, pois o texto sagrado nos diz que Eva foi
pecadora ou esteve sob o domínio da Serpente; ao contrário, Maria SS, foi
“cheia de Graça” e nunca se dobrou sob o jugo do Maligno; ao contrário
colaborou para a vitória sobre ele.
Com outras
palavras: assim como Gn 3, 2-7 apresenta a mulher (Eva) envolvida com o
Tentador e o pecado para a ruína do gênero humano, assim Gn 3, 15 apresenta a
mulher (Eva, Mãe da Vida),por excelência ou Eva plenamente realizada em Maria)
intimamente associada ao Messias na obra de Redenção do gênero humano.Assim a
mulher (Eva, Mãe da vida), que introduziu o pecado no mundo, será também a
introdutora da Salvação ou do salvador no mundo. O papel de Eva é recapitulado
por Maria.
Em conseqüência, pode-se dizer que
na profecia de Gn 3, 15 está contido, de modo ainda pálido, o núcleo da toda a
Mariologia, ou seja, é apresentado o nexo estrito que existe entre o Redentor
(= o 2º Adão) e sua Mãe (= a 2ª Eva ou a Mãe da Vida por excelência).
É de notar que S.
Jerônimo traduziu o pronome hebraico hu (= ele) por ipsa (= ela
mesma, em latim). Com isto insinuou que a mulher será a vencedora da Serpente,
esmagando-lhe a cabeça. Este modo de entender Gn 3, 15 tornou-se clássico entre
os ocidentais (haja vista o quadro da Imaculada Conceição, da autoria de
Murilo); todavia não corresponde ao original; este atribui a vitória ao
descendente da mulher. .... descendente cuja mãe é explicitamente mencionada e dignificada.
De resto, o texto de Gn 3, 15 é retomado em Ap 12, como se
verá no Módulo 7 deste curso: a Mulher e o Dragão (= a Serpente antiga)
retornam como protagonistas de um duelo entre o bem e o mal que perpassa toda a
história da Salvação, tocando a vitória final à linhagem da Mulher.
Como também será demonstrado, o texto de Gn 3, 15 ressoa em
Jo 2, 4 e Jo 19, 26, passagens em que Jesus dá a Sua Mãe o apelativo de Mulher,
alusivo ao Protoevangelho. Ver módulo 5 deste curso
Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo