Conselho Missionário Paroquial – COMIPA

                                                          História da Igreja

         2.2. Gnosticismo






 

         A gnose é uma corrente sincretista que funde entre si elementos das religiões orientais, da mística grega e da revelação judeo-cristã.Tentou envolver o Cristianismo no processo da fusão, pondo em xeque a pureza da mensagem evangélica nos séculos II/III. Por isso já em 1Tm 6, 20 há uma advertência a Timóteo para que evite “as contradições de uma falsa gnose ( pseudónymos gnosis)”.

 

         Os gnósticos atraiam os homens prometendo-lhes um conhecimento superior ao da simples fé cristã, reservada aos iniciados. Esse conhecimento (gnosis) forneceria a solução cabal dos problemas fundamentais da filosofia (origem do mal, gênese do mundo, redenção e felicidade definitiva do homem).

 

         Os gnósticos eram, antes do mais dualistas, isto é, admitiam um princípio bom, que seria a divindade (simbolizada pela Luz) e., em oposição, a matéria (simbolizada pelas trevas), má Por si mesma. Da Divindade emanariam os seres (eones) num sistema de (365?) ondas concêntricas, cada vez mais distanciadas do bem e próximas do mal. O homem seria um elemento divino que, em conseqüência de um acontecimento trágico, terá sido condenado a se revestir de matéria (corpo) e viver na terra. O Criador do mundo material seria um eon inferior, que era identificado com o Deus Justiceiro do antigo Testamento.

 

         Para libertar as centelhas de luz ou de bem aprisionadas na matéria eleva-las ao reino da luz, terá sido enviado ao mundo um eon superior, o Logos (Cristo). Este revelou aos homens o Deus Sumo e verdadeiro, que eles ignoravam; anunciou-lhes que o mundo da luz os espera e lhes transmitiu as maneiras eficazes de vencer e eliminar a matéria.

 

         O Salvador assim entendido tinha, conforme algumas escolas gnósticas, apenas um corpo aparente (docetismo) ou, segundo outras, tinham um corpo real, no qual o Logos desceu e permaneceu desde o batismo até a Paixão de Jesus.

 

         A salvação só pode ser obtida pelos homens pneumáticos (espirituais) ou gnósticos, nos quais prevalece a luz. A maioria dos homens ou a massa é matéria (hlica) e será aniquilada como matéria. Entre os espirituais e os materiais haveria os psíquicos ou os simples crentes católicos, que poderiam chegar a gozar de uma bem-aventurança de segunda ordem.

 

         Os gnóticos admitiam o retorno de todas as coisas às condições correspondentes à sua natureza originária.

 

         Pelo fato de desprezarem a matéria, os gnósticos deveriam praticar severa ascese ou abstinência de prazeres carnais. Facilmente, porém, passavam ao extremo oposto: recusando o Deus do Antigo Testamento, que era também o autor da Lei, rejeitavam normas de conduta moral e caiam em libertinismo desenfreado. Julgavam supérflua a confissão de pé perante as autoridades hostis, porque a verdadeira

 

 

profissão de fé, o martírio (testemunho, em grego) consistia na gnose; quem possui a esta, não está obrigado a sacrifício algum.

 

O gnosticismo se ramificou nas escolas diversas: a oriental, mais rígida, a helênica, mais branda, a de Marcião, mais Chegada ao Cristianismo, a dos Ofitas (cultores da serpente), a dos Cainitas, a dos Setianos...  Floresceu principalmente entre 130 e 180, contando com os chefes de capacidade notável (Basílides, Valentim, Carpócrates, Pródico...). Produziram rica bibliografia (tratados de filosofia, comentários de textos bíblicos, hinos...), de que nos restam poucos fragmentos.

 

O confronto entre a gnose aparentosa e o Cristianismo nascente foi de enorme perigo para este; a Igreja teve que desenvolver eloqüente e densa apologética representada principalmente por S. Justino, S. Irineu, Tertuliano, Hipólito de Roma... Os bispos se uniram entre si como autênticos guardas do patrimônio da fé; Roma, onde os principais mestres da gnose queiram implantar-se, soube desenvolver ação particularmente benemérita. Na confusão que entrou os cristãos podia estabelecer-se no debate doutrinário, o critério para julgar a veracidade de determinada sentença era a conformidade ou não desta com os ensinamentos da Igreja de Roma; estes eram decisivos, pois a comunidade de Roma estava sobre a pregação e o martírio dos dois principais Apóstolos (Pedro e Paulo): “É com esta Igreja (de Roma), em razão de sua mais poderosa autoridade de fundação, que deve necessariamente concordar toda Igreja, isto é, devem concordar os fiéis procedentes de qualquer parte; nela sempre se conservou a Tradição que vem dos Apóstolos” (contra as heresias III, 3, 1-3).

 

 

Lição 3: OS APOLOGISTAS

 

 

1) São Justino (+165 aproximadamente) recebeu o cognome de “filosofo”. Desde jovem, passou pelas principais escolas de filosofia de sua época (o Estoicismo, o Aristotelismo, o Pitagororismo, o Platonismo); finalmente conheceu os Profetas do Antigo Testamento e assim chegou a Cristo, cuja mensagem lhe satisfez plenamente; por isso dizia que o Cristianismo é a verdadeira filosofia; revestido do pálio dos filósofos, deixou sua terá natal, a Palestina, e foi pelo mundo até estabelecer sua escola em Roma. Deixou duas Apologias e o “Diálogo com Trifão judeu”. Os principais pontos doutrinais aí apresentados são:

 

·        A teoria do Verbo seminal. Onde há verdade, esta foi comunicada pelo Verbo

de Deus. A filosofia grega contém germens de verdade, que o Verbo lhes transmitiu através do Antigo Testamento.

 

Também todo homem possui no seu íntimo um gérmen do Verbo, que o capacita a conhecer a verdade. Após a vinda de Cristo, a plenitude da verdade se acha entre os cristãos.

 

 

 

 

·        O paralelo Eva-Maria foi formulado por São Justino pela primeira vez. Eva

virgem (ante de se relacionar com Adão), pela desobediência, trouxe a morte ao mundo; Maria Virgem pela sua fé trouxe a Vida-Cristo á humanidade.

 

2) Tertuliano (+ após 220) fez-se cristão em idade adulta, quando já exercia a profissão de advogado. Teve o grande mérito de criar uma terminologia precisa e afinada com as categorias do Direito para exprimir a mensagem cristã.

Cheio de fantasia, sátira e eloqüência, tendia ao rigorismo, que o levou a abandonar a igreja para aderirão Montanismo (que apregoava a proximidade de nova era, e do Espírito). Deixou 31 obras dedicadas a reafirmar o Cristianismo frente aos adversários.

 

3) Minúcio Félix é o autor do diálogo Octavius, do século III. Apresenta a troca de idéias entre o cristão Otávio e o pagão Cecílio; refuta as acusações contra os cristãos e traça um quadro atraente da vida destes.

 

4) A Epístola a Diogneto é de autor anônimo, que se dirige a um pagão de alta categoria para valorizar a ética dos cristãos: “Participam de tudo como cidadãos, mas tudo suportam como estrangeiros. Qualquer terra estranha é pátria para eles; qualquer pátria, terra estranha. Casam-se e procriam, mas nunca lançam fora o que geraram... Na terra vivem, participando da cidadania do céu... Para resumir numa palavra: o que a alma é no corpo, são os cristãos no mundo”.

 

O estudioso muito lucrará se dedicar à leitura de tais obras, pois lá encontrará fontes de inestimável riqueza para sua fé e a espiritualidade. Recomenda-se, pois: Cirili Folch Gomes, Antologia dos Santos Padres.  Ed. Paulinas. À guisa de introdução, ver: ª Hamman, Os Padres DA Igreja.   Ed. Paulinas.

 

 

 

                                                              PERGUNTAS

 

1)    Quais os principais objetivos dos antigos escritores da Igreja?

 

2)    Como os cristãos eram vistos pelos pagãos?

 

3)    Que foi o Gnosticismo?

 

4)    Você tem ao se alcance alguma das obras dos Padres aqui citados? Em caso positivo, leia um trecho da mesma e faça seu comentário.

 

 

 

 

 

 

 

1.     HISTÓRIA ANTIGA (~ 692)

 

 MÓDULO 4: AS PERSRGUIÇÕES

 

O Cristianismo expandiu-se co rapidez surpreendente, apesar dos obstáculos

que encontrou no mundo pagão. Vejamos, pois, quais os principais fatores que favoreceram a sua difusão e quais os grandes obstáculos que lhe opuseram.

 

Lição 1: FATORES POSITIVOS

 

1)    o mundo greco-romano estava no plano da filosofia e dos costumes. Com

efeito; o fracasso da razão, mencionado no módulo 1, levava os cidadãos do Império a procurar uma resposta diferente, que não fosse mero produto do gênio do homem, mas viesse “do Alto”; disto dão testemunho as religiões de mistérios e certas tendências ao monoteísmo dentro do Império.

 

No plano ético, o gozo, a futilidade e a procura de prestígio predominavam,

apesar de severa  doutrinação dos estóicos. O pobre era desprezado em favor do rico e poderoso; também a mulher sofria marginalização; mais ainda, o escravo, tido como base econômica do império, era tratado como “coisa”. 

 

         Ora a essa sociedade o evangelho propunha a valorização de toda e qualquer pessoa humana, feita à imagem de Deus (cf. Gl 3, 27 –29; Cl 3, 11), a caridade com todos, o amor à pobreza e à renúncia. Desvendava também o sentido da vida inspirado pelo amor daquele que primeiro nos amou (1Jo 4, 19) e que nos chamou ao consórcio da sua bem-aventurança a ser alcançada pela configuração a Cristo.

 

         2)Como foi insinuado, o Cristianismo aparecia aos pagãos como algo absolutamente novo e inaudito (cf. 2Cor 5, 17), mas correspondia às aspirações mais profundas do ser humano. Por isso podia dizer Tertuliano, o jurista romano convertido à fé cristã no fim do século II: “A alma humana é naturalmente cristã”; encontra no Evangelho a resposta aos seus anseios inatos.

 

         Com outras palavras: o Cristianismo não tinha em seu favor nem dinheiro nem tropas nem o apoio imperial, mas contava com o poder da atração e o fulgor da verdade: especialmente os problemas do sofrimento, da retribuição e do além encontravam (e encontram) no Evangelho uma solução que não é filosófica (a filosofia é incapaz de os resolver), mas que a sã razão pode aceitar pela fé sem trair a sua dignidade. Muitos estudiosos greco-romanos, depois de haver percorrido diversas escolas filosófico-religiosas, encontraram finalmente na igreja a verdadeira sabedoria, que eles estimavam como a única na qual podiam confiar (S. Justino, Diálogo com Trifão nº 8).

 

2)    Além de preferir a verdade, os cristãos a traduziam em vida. Embora não

se fechassem em grupos ou facções, os discípulos de Cristo primavam pela retidão de costumes, pelo amor fraterna, pela castidade...

 

Tertuliano nos transmite a observação feita pelos pagãos: “Vede como se amam mutuamente e como estão pronto a morrer um pelo outro!” (Apologeticum 39). Notório testemunho da conduta santa dos cristãos é a epístola a Diogneto, dirigida por um cristão anônimo a um  interlocutor pagão.

 

         Mesmo diante das ameaças dos perseguidores, muitos discípulos de Cristo se mantinham intrépidos a aceitavam a própria morte.A sua firmeza heróica dissolvia calúnias e convencia muitos dos que lhes eram alheios, como notam alguns escritores antigos. Dizia Tertuliano (+ 220) “Plures efficimur quoties metimur a vobis, semen est sanguis christianorum. -- Mais numerosos nos tornamos todas as vezes que somos por vós ceifados, o sangue dos cristãos é semente” (Apologeticum 50). E Latâncio (+ após 317): “Cresce a religião de Deus quando mais é premida” (Instituições V 19, 9).

 

3) Os cristãos tinham o zelo missionário, expressão do fervor da sua fé.

Homens e mulheres, livres e escravos, comerciantes e soldados sentiam o dever de transmitir a Boa-Nova, cientes de que assim estavam servindo a seus irmãos.

 

Eis, porém, que a expansão do Cristianismo se defrontou com sérios obstáculos,  como se verá a seguir. 

 

Lição 2: FATORES NEGATIVOS

 

         Enumeraremos os cincos seguintes:

 

1)    Já São Paulo notava a mensagem da Cruz é “escândalo para os Judeus e

loucura para os gregos” (1Cor 1, 23). O Cristianismo exigia renúncia à vida devassa e morte ao velho homem para possibilitar a formação da nova criatura em cada indivíduo; cf. Ef 4, 22s.

 

2)    O politeísmo era o culto oficial do império; parecia ameaçado pelo

monoteísmo cristão, que parecia até mesmo ateísmo. Os cristãos pareciam indefesos aos homens e ao Estado, pois estavam solapando as bases destes. Notemos que os romanos eram tolerantes para com a religião dos povos conquistados; colocavam os deuses destes no Panteon de Roma; teriam feito isto também com Jesus Cristo, mas os cristãos de modo nenhum aceitavam pactuar com o politeísmo. Verdade é que o judaísmo era estritamente monoteísta e, não obstante, conseguia bom relacionamento com as autoridades romanas (cf. 1Mc 14, 16- 24); acontece, porém, que o judaísmo era uma religião nacional, de pouco proselitismo. Ao passo que o Cristianismo tinha destinação universal, voltada para todos os homens.

 

3)    Em particular, o culto do Imperador divinizado foi-se difundindo desde fins

do século I. Veio a  ser  a pedra de toque de lealdade civil e do patriotismo; quem o recusasse, era acusado de traição à partia.

 

4)Toda a vida civil, em família ou na sociedade, era impregnada do espírito e

das expressões do paganismo; assim as festas do lar comemoravam os deuses domésticos (penates e manes); os espetáculos públicos os torneios esportivos, as feiras de comércio. O regime militar... Deixavam transparecer a sua inspiração básica politeísta. – Os cristãos eram fiéis aos seus deveres de cidadãos, como lhes ensinava o Evangelho: “Daí a César o que é de César” (Mt 22, 21; cf. Rm 13, 1; 1Pd 2, 13-17); mas não podiam participar de manifestações que, direta ou indiretamente, professassem o politeísmo.

 

5)O modo de vida singular dos cristãos provocou0lhes, da parte dos pagãos,

calúnias fantasiosas e duras. Eram acusados a três títulos principais:

 

·  ateísmo – o que seria também antipatriotismo e misantropia (ódio dos pagãos, 

humano);

·        Banquetes de orgia, nos quais se comia carne de criança; assim era entendida a

Eucaristia, por vez celebrada às ocultas por causa dos perseguidores. O culto cristão se dirigia a um asno crucificado (tal era o mal entendido que o Crucificado suscitava; seria “burrice”);

·        Causa de calamidades públicas, como pestes, inundações, fome, invasões de

bárbaros... Eram tidas como castigos dos deuses, que os cristãos irritavam por seu “ateísmo”. Esta acusação persistiu até o século V, mesmo quando as outras queixas iam cessando. Os Cristãos pareciam inimigos do bem comum, lucifuga natio (facção que foge à luz), recrutada nas classes mais desprezíveis da sociedade. De modo especial, os comerciantes, os artistas, os sacerdotes pagãos, os adivinhos os hostilizavam, pois a fá cristã prejudicava os seus interesses profissionais. 

 

         Compreende-se que o clima assim criado tenha suscitado violentas perseguições aos cristãos. Estas, de fato, ocorreram desde 64 até 313. 

 

 

     

Lição 3: A LUTA SANGRENTA

 

Distinguimos duas fases na era das perseguições: a primeira vai até o

Imperador Filipe o Árabe (244- 249); a segunda começa com Décio, seu sucessor (249- 251). A primeira fase foi mais longa, contudo menos cruel; aos anos de perseguição se seguem anos de paz. Ao contrário, a segunda fase desenvolveu sistematicamente a senha do Império contra o Cristianismo.

 

3.1. DE Nero (54- 68) a Filipe (244-249)

 

Nero foi um Imperador cruel. Na noite de 18 para 19/07/64 começou um incêndio em Roma, que durou seis dias e devastou três quartos da cidade. A opinião pública atribuía – talvez erroneamente – a desgraça à loucura de Nero. Este terá procurado desviar de si a suspeita oferecendo ao povo motivos de divertimentos: com efeito, mandou prender uma multidão de cristãos – acusados de ateísmo, orgias e misantropia – e na noite de 15/08/64, dentro do jardim imperial (circo Nero, onde atualmente se ergue a basílica de S. Pedro), submeteu-os a tormentos (crucificação, tochas vivas, representação cruenta de cenas mitológicas), à guisa de espetáculos para o povo. De então por diante o nome cristão era banido; ser cristão equivalia a arriscar-se a morte.

 

Após Vespasiano e Tito, imperadores mais tranqüilos, Domiciano (81-96) reacendeu a perseguição, fazendo-se chamar oficialmente Dominus ac Deus (Senhor e Deus). O Apóstolo São João foi então exilado para a ilha de Patmos (cf. Ap 1, 9).

 

         O Imperador Trajano (98-117) fixou uma nova norma de conduta para os oficiais do império: Os cristãos são ateus; por isso desde que convictos, hão de ser punidos; mas não devem ser procurados; as denúncias anônimas não têm valor;

caso reneguem a sua fé, sejam postos em liberdades. Esta norma estabeleceu jurisprudência para o futuro.

 

         Marcos Aurélio (161-180), desencadeou outra perseguição, em parte devida à insatisfação do povo, que acusava os cristãos de responsáveis por calamidades que afligiam a sociedade.

 

         Sétimo Severo (193-211), em 202, assinou um decreto que atingia tanto os judeus com os cristãos; estes últimos surpreendiam o Imperador por crescerem numericamente nas camadas elevadas da sociedade. Proibiu, pois, as convensões ao Cristianismo; os magistrados não deviam esperar denúncias, mas haveriam de procurar os cristãos. Assim catecúmenos e neófitos (cristãos recém-batizados) foram violentamente golpeados, especialmente no Norte da África, onde existiam em maior números.

 

Seguiram-se quarenta anos de relativa paz.

 

 

3.2. DESDE  DÉCIO (249-251) ATÉ CONSTANTINO (313).

 

Décio (249-251) quis restaurar o Império em seu esplendor de tempos passados, consolidado-o contra inimigos externos e internos. Para tanto haveria de reforçar a religião oficial do Império, visando especialmente aos cristãos, que ele considerava como os inimigos mais perigosos do estado. Por conseguinte, em 250 decretou que todos os cidadãos do Império Romano deveriam manifestar expressamente a sua adesão à religião do Estado, oferecendo aos deuses um sacrifício propiciatório; quem o fizesse, receberia um certificado (libellus) de dever cumprido; quem resistisse, seria submetido a penas diversas (cárcere, confiscação de bens, exílio, trabalhos forçados...) até à pena de morte. Os Bispos estavam particularmente na mira do Imperador, que dizia tolerar mais facilmente um rival no Império do que um Bispo cristão em Roma. Os cristãos, colhidos de surpresa por esse decreto, fraquejaram em parte; mas houve também uma multidão de mártires de todas as idades e de ambos os sexos.

 

Após dois anos de paz sob o Imperador Galo (251-253), Valeriano (253-260) em 257, vendo o Estado em grande miséria, quis remediar-lhe mediante novo golpe contra os cristãos. Visou a dissolver a organização das comunidades cristã, ferindo Bispos, sacerdotes e diáconos; mandou, pois, que estes oferecessem sacrifícios aos deuses sob pena de exílio; a visita aos cemitérios e a participação nas reuniões de culto eram proibidas sob ameaça de morte. Naquela época já havia muitos cristãos exercendo funções no palácio imperial; foram condenados a trabalhos forçados na condição de escravos. Logo, porém, que Valeriano foi preso na guerra persa (259),a tormenta foi amainando.

 

Diocleciano (284-305) assumiu o governo imperial muito abalado por desordens internas. Por isso promoveu profunda reforma administrativa, que haveria de implicar nova tentativa de restaurar ou fortalecer a religião do estado. O Cristianismo estava muito difundido, contando entre 7 e10 milhões de fiéis num total de 59 milhões de habitantes do Império; Prisca, a esposa de Diocleciano, e sua filha Valéria eram provavelmente favoráveis ao Evangelho, além de altos oficiais do exército e da corte. – Desencadeou-se assim a última, a mais grave e a mais longa perseguição, que tendia aniquilar o Cristianismo numa luta de vida ou morte: foram condenados à destruição os templos e os livros sagrados cristãs. Em 304 um decreto imperial obrigava todos os cidadãos a sacrificar aos ídolos –o que provocou o derramamento de copioso sangue ou execuções em massa.

 

Todo esse esforço perseguidor havia de ser vão; O Estado havia de capitular diante da tenacidade dos discípulos de Cristo. Após muitas peripécias dentro de um Império esfacelado, Constantino, um dos sucessores de Diocleciano, houve por bem publicar em 301 o Dito de Milão: este concedia a todos os habitantes do Império e, em particular, aos cristãos plena liberdade de religião e de culto; às comunidades cristãs se faria a restituição ou a indenização aos edifícios e das terras confiscadas durante as perseguições. Assim dissolvia-se pela raiz o vínculo existente entre o Império Romano e o culto pagão; abria-se uma nova era na política religiosa do estado e inaugurava-se um novo segmento de história do Cristianismo.

 

É difícil dizer ao certo o número de mártires nos quase três séculos de perseguição: 100.00 ou talvez apenas algumas dezenas de milhares? As atas de Martírio que nos chegaram às mãos foram retocadas para servir à edificação dos leitores em vários casos, como as de Sta. Cecília, S. Jorge, S. Cristóvão, S. Sebastião, S. Lourenço,...;reconhecendo isto após um estudo objetivo de tais documentos, a Igreja quis dizer aos fiéis que nem tudo o que se narra a respeito dos mártires antigos é seguramente histórico; tal declaração nada tem que ver com “cassação de Santos”; Os Santos serão sempre santos, mas hão de ser cultuados na base de informações históricas, e não na de narração fantasiosas. É de notar, porém, que temos também testemunhos de autenticidade garantida, que nos referem a virtude heróica dos mártires cristãos.

 

 

Perguntas

  

1)    Poderia sintetizar os fatores de rápida expansão do Cristianismo?

2)    Cite três dos obstáculos que se lhe opuseram.

3)    Qual a mais grave perseguição?

4)    Que é que a vida dos cristãos sobre o Império perseguidor lhe sugere como de reflexão de fé?










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